
Dantes, quando não era gay assumido, fazia de tudo para esconder a minha homossexualidade e havia sempre alguém que descobria e estragava tudo. Agora, que sou gay assumido, tento “demonstra-la”* e passa ao lado de toda a gente… Bah…
*”Demonstra-la” não significa andar com um letreiro a dizer “sou bicha” mas também não é esconde-la, dissimulá-la (estratégias da omissão) ou, pior, dizer-se que se é heterossexual (estratégia da mentira). Tal como os meus amigos tem o direito, através dos comentários, dar a entender que são heterossexuais porque é que não posso fazer o mesmo? Será que tenho que dizer “eu-sou-gay” para me afirmar quando nenhum heterossexual diz “eu-sou-hetero”? Recuso-me!
Eu tenho que me esconder sobre o pretexto da “intimidade/privacidade”, como se em sociedade fosse possível ocultar algo tão banalizado como a orientação sexual (bastam perguntas como “estado civil”), e os heterossexuais (os “normais” das histórias e da História – meramente contingentes –) podem, naturalmente, verbaliza-la?
A sociedade é heterossexual (termo correcto: heteronormativa). Toda a gente é heterossexual até prova do contrário. Quando alguém diz que é gay ou lésbica ou bissexual ou transsexual não está a expor a sua intimidade, não está a ser exibicionista. Está, antes de tudo, a usufruir da sua liberdade de expressão. Algo que os heterossexuais não precisam porque, lá está, a sociedade é heteronormativa e esse heterossexismo está patente, por exemplo, na organização da sociedade em dois géneros: homem e mulher. Essa díade pressupõe, por si só, uma heterossexualidade à priori. Nada de mal há nisso, assim como nada de mal existe em ser-se minoria (como ter olhos azuis, por exemplo). O problema reside no facto de se legitimar a não representação de pessoas LGBT ou a sua consideração como cidadãos e cidadãs de segunda, reportado/as para o campo de concentração guetizante que é (seja lá o que isso for!) a “intimidade”. Oculta, imperceptível e sombria. Tal como um armário.
Existe uma discrepância implícita na forma como homossexuais e heterossexuais encaram a sua sexualidade. Vou-vos dar um exemplo: há uns tempos atrás a rede social mundialmente conhecida, o Hi5, tinha um tópico denominado “orientação sexual” assim como outros, como por exemplo, o nome, idade, hobbies, etc. Perfeitamente natural. As opções para orientação sexual variavam: Heterossexual, gay (não tinha a opção “lésbica” curiosamente), bissexual, “digo-te depois” (depois do quê?) e tinha uma opção de nem sequer mencionar o tópico “orientação sexual”.
Os heterossexuais (homens e mulheres), sem medo ou alarido, colocavam aí a sua orientação: heterossexual. Os meus amigos gays e bi, na sua maioria, colocavam “digo-te depois”, ou seja, aquela opção sinistra de que não se sabe muito o que é. Gostas de sopa? – Digo-te depois! És negro? – Digo-te depois! Respiras? – Digo-te depois! Perguntei aos meus amigos, alguns deles assumidérrimos, então porque é que não colocavam lá a sua verdadeira identidade tal como os heterossexuais. Se a resposta se prendessem com o medo de represálias (numa sociedade fortemente homofóbica) e/ou a possibilidade dos pais descobrirem e eventualmente tomarem uma decisão extremista como expulsar a pessoa de casa e/ou receberem comentários maldosos ou insultuosos, entendia perfeitamente, mas não. O argumento era: “Ninguém precisa de saber a minha orientação sexual!”. Oh pá, é aí que a porca torce o rabo! Incrível como os próprios gays “absorvem” o preconceito cínico da invisibilidade. Estão a imaginar um heterossexual (principalmente homem) a dizer: “Ninguém precisa de saber a minha orientação sexual!”? Caramba, em muitos países nórdicos perante a pergunta “é gay?” a resposta não é acompanhada, na maioria das vezes, de receio, hesitação ou repulsa. A resposta (seja ela qual for) é dada de forma simples e meramente informativa. Mas os países nórdicos não são países latinos, né verdade?
Até perceberia melhor se nem sequer colocassem a categoria “orientação sexual” mas o “digo-te depois” confundia os heteros e poderia ser uma porta de entrada para gays/bis.
Óbvio que há uma série de coisas na nossa vida à qual a orientação sexual é irrelevante: o exercício de uma função ou de um emprego, a necessidade de afecto, o intelecto, a construção de uma amizade. No entanto, a referência à sexualidade é algo que naturalmente surge, ou pelo menos, deveria surgir e está, ou deveria estar, patente nas conversas entre amigo/as, colegas, familiares, etc. Ou afinal, a “modernidade” e a liberdade sexual que dizemos orgulhosamente ter não passa também de um cliché politicamente correcto?
O único problema prende-se com a resistência do exterior e o medo de represálias, daí o facto de a maioria dos LGBT’s não assumir a sua orientação. Ok, mas os heterossexuais mais liberais, pseudo-compreensivos com a condição homossexual, não estão à espera que todos os homossexuais sejam tod@s não assumidos, certo?
Homofobia não é só insulto e/ou agressão. A invisibilidade da homossexualidade também é homofobia! Lembram-se do Presidente do Irão em 2007 afirmar que no país dele não haviam homossexuais levando as organizações humanitárias ao riso?
Em última instância, o insulto e/ou agressão funcionam como uma forma de “normalizar” o/a gay/lésbica. De remete-lo/as para o silêncio. Um bocadinho como uma dinâmica comportamentalista de acção e castigo. Não é também à toa que gays efeminados são os alvos mais frágeis… Não é à toa que se “aceita” (ou “tolera-se”, however) a homossexualidade com falácias como “não tenho nada contra MAS…” ou “não tenho nada contra mas NÃO SEJAM BICHONAS!”…
Estão a imaginar? “- Aceito a heterossexualidade! Logo que NÃO SEJAM MUITO MACHÕES!”. A visibilidade gay ameaça a heterossexualidade, muitas vezes a nível inconsciente, trespassando a própria racionalidade.
A invisibilidade era uma estratégia eficaz quando a sodomia era um pecado e as WC’s dos shoppings ou estações de comboio das grandes cidades assim como praias ou estações de serviço faziam a vez de quem não queria abdicar da sua identidade até nos, mais ou menos, discretos bares gays. Hoje a invisibilidade é um problema gravíssimo.
A problemática da invisibilidade associada às questões da homossexualidade é uma questão tão grave que, alguns países, como o Canadá ou o Reino Unido por exemplo, na impossibilidade de identificarem, com exactidão, um homossexual, negam o asilo a homossexuais que tentam escapar do seu próprio pais onde a homossexualidade é crime pois qualquer criminoso de guerra, traficante ou terrorista poderia fazer-se de “homossexual” e conseguir asilo em países da Europa. Pedir alguém para ter relações homossexuais, como óbvio, além de não ser comprovativo de nada, é tudo menos ético…
Por exemplo, em casos de assassínios de homossexuais tem-se uma relutância em provar que a vítima seja homossexual. A estratégia da defesa do arguido passa, muitas vezes, por argumentar que não se trata de crime homofóbico (porque, como se sabe, em alguns países, crimes de ódio são considerados mais graves logo tem uma pena mais pesada) pois não se consegue provar a orientação sexual da vítima. Ser homossexual não é como ter uma característica identitária visível como o sexo (ser mulher, homem) ou cor de pele (ser branco, negro) e aí reside o problema.
Muitas pessoas, reconhecendo isto, podem “pressionar”, muitas vezes, o homossexual aproveitando-se da invisibilidade e jogar a favor da sua própria homofobia. Note-se que uma das ameaças mais comuns entre casais constituídos por pessoas do mesmo sexo é: “Vou contar à tua família que és gay/lésbica!” remetendo a questão da violência doméstica entre casais homossexuais para uma dupla invisibilidade.
A própria invisibilidade faz com que gays e lésbicas, principalmente em zonas mais desertificadas como em algumas zonas rurais, achem que são os único/as levando-o/as, muitas vezes, para casamentos arranjados ou então afectando a sua própria auto-estima e auto-conceito (não é à toa que jovens gays e lésbicas tem 4 vezes mais tendência para o suicídio…)
Sei que o leitor/a certamente está a pensar que é fácil detectar gays e lesbicas, a partir da velhinha história dos tiques. Não querendo escrever uma tese sobre as falácias da estereotipização, limito-me a exclamar que tal pensamento é deveras arcaico. Por essa ordem de ideias até posso ser homofóbico com um homem heterossexual efeminado…
Dessa forma, o casamento entre pessoas do mesmo sexo até é uma forma viável de autonomizar a identidade homossexual: “- Sou gay! - Como prova? – Sou casado com outro homem!”. Sabendo de antemão que o casamento entre pessoas de sexo diferente – o tradicional - não é fonte segura da heterossexualidade de ninguém, verdade seja dita, mas o contrário é mais seguro porque ninguém precisa de esconder a sua heterossexualidade…
Contudo, parece-me que o coming out (sair do armário) é uma das estratégias mais eficazes para combater o preconceito homofóbico na sua essência. Exposição significa confronto, é verdade, mas sem confronto não há mudança. Certamente que se os homossexuais em 1969 no Stonewall ficassem paradinhos, ainda hoje o Governo teria leis que patologizavam a homossexualidade.
Como Harvey Milk dizia: “A intimidade é uma armadilha”.
1 comentário:
Oh meu Deus! Está brutal!!! who are you?
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