sexta-feira, 5 de junho de 2009

A reconversão da orientação homossexual


1. “Ter uma orientação homossexual ainda não é pacífico.
Mesmo que pareça que as pessoas que se vinculam amorosamente a pessoas do mesmo sexo já não precisam de disfarces ridículos e códigos de comunhão à parte, há sempre mais qualquer coisa a lembrar que não é bem assim. Que séculos de história em que a homossexualidade existiu de forma escondida e contrafeita não se desvanecem tão rapidamente como às vezes gostamos de acreditar. Que modelos dominantes do ser homem e do ser mulher se construíram sobre afirmações de uma sexualidade conforme as regras e submetida a um interesse colectivo. Que o diferente pode continuar a ser ameaçador apenas porque sim.
2. Desta vez foi uma entrevista de reputados médicos em que se dizia que era possível reconverter a homossexualidade, que havia terapias disponíveis para, em alguns casos, homossexuais deixarem de o ser.
Claro que há. Aliás, também se pode converter heterossexuais em homossexuais, se for esse o desejo das criaturas de Deus. Do ponto de vista técnico pode fazer-se quase tudo, o que não significa que do ponto de vista ético seja aceitável fazê-lo.
Mas a questão é capaz de não ser essa. O que parece continuar em jogo é o facto de a aceitação da homossexualidade, mesmo por parte de membros da comunidade científica, ser enviesada e discutível.
3. Que a orientação sexual seja polémica à luz de um qualquer enquadramento moral ou religioso é um facto com o qual se tem de lidar. Que, entretanto, a ciência vista as mesmas roupagens e debite um discurso idêntico a partir de um lugar de outra qualidade de poder, já é mais preocupante.
Exactamente porque a técnica permite muitas coisas, às vezes mesmo demasiadas para o grau de entendimento que se tem delas, é que faz sentido manter-se os discursos e as práticas que se reclamam de cientificas num patamar diferente daquele que apresentado pelas ideologias milenares.
A questão da orientação sexual tem sido um tema sobretudo de cultura, e é estranho, agora que isso foi compreendido, querer, pela mão da ciência, reconvertê-lo.”


Isabel Leal, psicóloga (Noticias Magazine, nº 888, 31 de Maio de 2009)

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