

Estou maravilhado com estes dois livros. Finalmente encontrei-os na biblioteca da faculdade, requisitei-os e devorei-os. A História da sexualidade II: O uso dos prazeres e A História da sexualidade III: o cuidado de si, ambos de Michel Focault e ambos das edições Relógio d’agua (editora muito gay, por sinal).
Eu já tinha lido o livro Amor e sexualidade no Ocidente de George Duby (com alguns textos de autores referência, como por exemplo, Paul Veyne) e tinha adorado, pois o livro falava, em dois capítulos, sobre a homossexualidade nas sociedades greco-romanas e tinha um outro capitulo dedicado ao nascimento de uma minoria.
Focault vai mais longe e estabelece relações entre as múltiplas concepções de sexualidade (o termo grego para sexualidade é afrodisia) e os saberes produzidos pelas sociedades assim como os seus discursos sobre a verdade. Esmiúça ao máximo textos antigos para perceber as dinâmicas e os conceitos referentes à sexualidade e o trabalho é espantoso.
Começa por desmistificar a hipótese repressiva referente à moral sexual das sociedades ocidentais actuais, fruto da ideologia judaica-cristã. Ao estabelecer uma comparação entre as sociedades pagãs e o posterior avanço do cristianismo que teve como consequência a formulação de uma nova concepção de sexualidade, demonstra inclusive que a Antiguidade (o exemplo estudado são as sociedades greco-romanas, em quatro grandes dimensões quanto à moral sexual: a natureza do acto sexual, o casamento – ou vinculo económico, como quiser – e a fidelidade monogâmica, a relação com os rapazes – a questão da homossexualidade masculina – e a abstenção sexual) já problematizava essa dimensão e que “não era tudo ao molho e fé em Deus”.
Rejeitou, no entanto, uma linha de continuidade legitimadora. A grande diferença entre estas sociedades no que toca à moral sexual, é que a Igreja procurou fundamentar as suas regras coercivas, de uma forma universal, assertiva, rígida e institucional, impondo normas a uma perspectiva colectiva, ao passo que as sociedades antigas, sugeriam a sua moral, erigida duma perspectiva individualista.
Fascinante!
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