quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

GaGa, Lady GaGa


Quando Madonna apareceu, o mundo era um pequeno lugar a projectar-se para lá dos muros de Berlim com a energia neoliberal a todo o vapor (Olá Tatcher, olá Reagan!).

No showbusiness, poucas eram as mulheres, devotas à música pop, que se sustinham para lá dos singelos one-hit-wonders a não ser Debbie Harry (Blondie), Cher (antes do fogacho euro dance), Kylie Minogue (ainda a aprender a gatinhar nos meandros musicais) e Samantha Fox (que sobrevivia, muito em parte, graças aos seus dois talentos mamários). Madonna apareceu e mudou as regras do jogo. Não que não ficasse com a fama (e proveito!) de ter dormido com este e aquele (e esta e aquela) para conseguir os seus intentos mas porque a sua coragem, astúcia, determinação e sobretudo olho para coisa (vulgo, empreendorismo) ajudaram a traçar o seu caminho para o topo do mundo, tudo sobre o olhar atento da precoce MTV e dos novos conceitos de concerto (teatro + show). A indústria musical era (e ainda é – não nos mesmos termos -) terrivelmente sexista.

Intitularam Madonna a Rainha da Pop (ou ela se auto-intitulou assim – o mais provável). E a coisa tornou-se inquestionável até que em finais dos noventa (quando a idade já pesa, mais do que o talento), aparece Spears. Quando Spears aparece, é promovida como a mais recente sucessora de Madonna (com direito a noivados e beijinhos lésbicos). Tudo parecia perfeito. Contudo, a jovem cristã de Kentuchy era demasiado inocente e musicalmente diferente de Madonna. O cameleonismo parecia descontextualizado e a inteligência lírica de Britney era muito auto-centrada, típica de uma adolescente com acne (Miley Cyrus, sim, é contigo!). De Madonna, herdara só o vigor sexual, a doçura grudenta das canções pop, o gosto pela polémica (em Madonna propositado e em Spears descontrolado) e a cor de cabelo. Quanto a Aguilera nunca ameaçou muito este esquema, em parte, graças ao seu vozeirão de Golias que a faziam aproxima-la mais, ora de Mariah Carey, ora de talentos irrelevantes como Anastacia. Em suma (e para todos os efeitos): Madonna continua intacta.

Até que (tchan!) em 2008, uma senhorita de nome (nada mais, nada menos) que Lady GaGa aparece em cena. Quando “Just Dance” rompe pela MTV, não passava apenas de mais uma canção pegajosa com uma loira a tender para uma Gwen Stephani com metade da idade. GaGa era linear, básica, inofensiva e tirando um arzinho eighties com um pingo de malícia, francamente irrelevante. Mas algo acontece (a industria musical e o marketing tem destas coisas!): de um momento para o outro, GaGa torna-se a injunção inexacta (tudo em GaGa é inexacto) da excentricidade camp do drag queen Komi, da rebeldia enérgica e magnetismo enigmático de Grace Jones (versão branca), do pluralismo multiétnico de M.I.A. (apesar de a relação ser altamente conturbada) e da iconografia pin-up altamente sexualizante de Madonna. GaGa torna-se a excentricidade do momento, com tudo a que isso tem direito (medias, shows, entrevistas, concertos, etc): ela é sexo com mortos, ela é vestidos de carne, ela é orgasmos com a mente, ela é sangue em palco, ela é… bem, ela é ele; GaGa torna-se um furacão de polémicas. Mas não é isto que faz dela um destaque mundial (antes fosse…).

O seu vanguardismo pós-moderno (traduzível na fragmentação identitária e em parte, devido ao seu inusitado vestuário onde até o Cocas é chamado à recepção) e o seu estilo musical que ataca em várias frentes sobre o manto de uma rouquidão sixties (pop, electro, eighties, r’n’b, jazz, etc) fazem parte da receita (e quem canta assim não é GaGa!). Os clipes milimetricamente mega produzidos (e numa altura em que os orçamentos já não dão para muito…) e a personalidade enigmática e cínica de GaGa (como se estivesse a esconder algo e/ou a representar um papel) fazem parte de outra receita. É errado compara-la a Spears. Todas estas características pertencem a Madonna e GaGa não tem pudores em seguir-lhe (as vezes de uma forma escandalosamente igual) os passos levando a própria Rainha Pop a tomar as devidas providências (desde de beijinhos na boca a comentários azedos).

Goste-se ou não (por puro sexismo nunca se gosta de artistas femininas pop mainstream, a não ser claro, mulheres e gays, estes últimos estrategicamente e cegamente mobilizados pelo “Gaguismo”), o que vamos ver em Lisboa amanhã, é mais de um mero fenómeno pop e mais que uma enorme estrutura capitalista montada para o eterno e velhinho negócio do making money; é a continuidade teleológica de Madonna sobre outro corpo; é a energia pulsante de uma estrela em ascensão na mega constelação pop, rumo às plateias e às polémicas; é a imaginação surrealista das mentes mais hereges que vagueiam desnorteadas para o além das possibilidades. O que vamos ver (mais do que ouvir) amanhã em Lisboa não é traduzível por descrições, é apenas (gravem o nome!): GaGa, Lady GaGa!

3 comentários:

Francisco disse...

vpEstou bastante impressionado. Sim senhor, este post podia ser um artigo de uma revista ou de um jornal.
Bom concerto

Mark disse...

Gostei bastante da reflexão sobre o fenómeno "Lady Gaga". Fenómeno que aprecio, confesso.
De facto, também concordo quando afirmas que só Lady Gaga se revelou uma "substituta" (se é que alguém pode ser substituído) de Madonna.
A Britney faltou-lhe algo mais do que aquela adolescência irreverente (e também ela acaba). Para além disso, descontrolou-se completamente nos escândalos.
Quanto à referência a Christina Aguilera, concordo quando afirmas que o seu vozeirão a afastou do "esquema Madonna", mas discordo nas comparações a Mariah Carey. A Christina tentou tudo e nunca conseguiu ser nada por completo. Colou-se a Madonna e a Britney (era Stripped) mas não resultou; tentou colar-se ao lado de grandes divas no estilo (Mariah e etc) e não resultou. Na categoria dela só existe ela e isso é muito bom: torna-a única.
Gostei também das referências ao Euro Dance, um verdadeiro "fogacho", como disseste, da década de 90 e das referências à Samantha Fox e à Blondie que definitivamente morreram para a música e para os media. A Cher marcou pontos na década de 60 e 70 com o Sonny, marcou alguns nos 80's e morreu (até agora) com o Believe, considerado por mim o estertor de morte de um Euro Dance deturpado.
Miley Cyrus é projecto que não "tem pernas para andar".

Por último, fui ao concerto na sexta à noite e gostei imenso, não fosse eu fruto do capitalismo desalmado que se vive. A Gaga é boa aluna e aprendeu com os melhores professores Foi isso que eu vi e foi isso que me leva a dizer: gostei. :)

Natcho Popcorn disse...

Obrigado Francisco e Mark ;)