terça-feira, 8 de março de 2011

Evas

«Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
'Cause it's OK to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
'Cause you think that being a girl is degrading
But secretly you'd love to know what it's like
Wouldn't you
What it feels like for a girl»
Madonna – What it feels like for a girl


A democracia, essa “coisa” política tão desejada e tão polemicamente conturbada, impregnada de sentidos hermenêuticos dualmente paradoxais, foi inventada, no sentido expresso da própria acepção da palavra, pelos Gregos.


Etimologicamente decomposta, designa o poder (cracia) do povo (demo). O que isto quer dizer? Quer dizer que a classe política (o Governo, a identidade governativa, etc) é eleita pelo conjunto de cidadãos que ela representa (ou pretende representar) e estes ficam atrelados a este sistema de eleição, efetuada pelo voto, daí a designação de “cidadãos”, ou seja, aqueles que praticam a cidadania.


Ora, como se sabe, os Gregos dividiam as suas gentes em cidadãos, metecos, escravos e mulheres, sendo que só os primeiros poderiam votar (daí serem “cidadãos”). Aos outros, eras-lhe vetado esse direito. Visto que o sistema democrático pretendia através de uma organização social assente na legitimidade equalitária, o acesso aos locus de decisão (entre Governo e cidadãos), parecia contraditório que uma camada das suas gentes, significativamente abrangente, não pudesse votar. Que fosse excluída da democracia e assim da cidadania. Que fosse representada por outras tantas gentes sem que tivesse o poder de optar se quisessem ou não serem representadas.


Torna-se um facto que a questão do voto para as mulheres (e como viria a ser mais tarde para os/as negros/as) seja uma matéria de grande importância para as feministas do sec. XVIII, impulsionadas pelos ideais iluministas da Revolução Francesa, embora estas primariamente erguessem a sua luta em redor do trabalho assalariado e da educação para todos/as.


Com este pequeno exemplo grego percebe-se que ainda hoje em muitas sociedades as mulheres não tem o direito de escolher quem as representa e isto não é mal menor. É uma violência simbólica que fragiliza as mulheres no plano social. É o não usufruto de uma cidadania ou de uma cidadania incompleta. Um grupo da população vê-se proibida de votar e sujeita a leis que não escolheu, que não formulou.

Esta desigualdade em comparação com o seu “homólogo”, o homem, está descrita no «Génesis» bíblico. Deus é claro quando cria o homem, Adão, à sua imagem e semelhança (Deus = homem) e depois surge a Mulher, atrelada, co-dependente, de uma costela (Mulher é apenas parte de Deus), sujeita as ordens de Adão, projetada no imaginário coletivo como uma bruxa, uma prostituta sem piedade, que induz ao homem ao maior dos pecados sendo a razão principal da sua expulsão do Paraíso.


O mito fundador é exemplo do destino predicado às mulheres. O destino da desigualdade. As mulheres não podem ter acesso à educação, não podem ter acesso ao trabalho assalariado, não podem votar, não podem escolher os seus esposos (muito menos esposas) (e estamos a falar de leis). No plano social, as leis sobre o adultério (Sakineh) são muito mais repressivas para elas (se um homem tem várias mulheres é um Don Juan, se uma mulher tem vários homens é uma puta, dizia Aguilera em «Can’t Hold Us Down», daí que a palavra cortesão/â tenha diferentes concepções).


Quando olhamos para a “nossa” sociedade Ocidental (nem falarei da cultura islâmica) e pensamos que estas leis parecem tão ridiculamente obtusas e que hoje nada disto acontece, talvez seja melhor pensarmos duas vezes: os números da violência doméstica “vitimizando”, na sua maior parte, mulheres (e aquela violência que não ousa visibilizar-se); as discrepâncias assalariais (as mulheres recebem 30% menos no exercício do mesmo cargo); os estatutos legais como o exercício da parentalidade que é imposta às mulheres e negligenciado nos homens embora hoje a realidade tenha lentamente mudado e os códigos sociais simbólicos como a questão do papel de género, da manutenção vigiada da sua sexualidade, da desconstrução identitária do sujeito feminista (ser mulher branca/classe alta/ocidental… não é mesma coisa que ser mulher negra/classe baixa/não ocidental…), do exercício das profissionalidades, etc.


A igualdade no campo do género parece conquistada mas há muita coisa por fazer visto que a desigualdade é estrutural à própria sociedade e portanto co-extensiva a ela. Faz sentido assim haver uma constante dinâmica de “ação/contra-reação”. De facto, olhando para as revoluções do mundo árabe, feridas pelas marcas da desigualdade capitalista, podemos ter uma larga esperança que a igualdade de género seja uma inevitabilidade (grita-se «Liberdade para as Mulheres» na Arábia Saudita) à qual nenhuma força política ocidental parece-se opor.


Em suma: parece-me que as Evas não ocidentais estão prestes a dar uma lição aos misóginos Gregos clássicos o que é paradoxal porque muita nossa cultura, epistemologicamente tida como “superior”, foi fundada no égide da harmonia democrática grega. É preciso ser-se muito mulher…

2 comentários:

pedro a. disse...

posso ser um bocadinho geek? :p
houve uma altura na história em que a mulher (o feminino) era vista como igualmente digna em relação ao homem.
Nos finais da idade média, as protociências que tentavam desvendar os segredos do mundo (a alquimia era a base delas todas) eram suportadas por uma visão do universo que recomendava a prossecução do equilíbrio (atingida pelo correcto balanço entre dois opostos) como resolução de todos os problemas da vida - filosofia pensada por um filósofo grego do qual não me lembro do nome.
Isto para dizer que, tanto na vida do homem como na da natureza, havia sempre um lado masculino e um feminino, igualmente importantes e interdependentes, que importava conjugar para que a ordem natural das coisas fosse respeitada. Assim, por exemplo, o fogo masculino presente no sangue era balanceado pela temperança feminina do cérebro. Masculino e feminino eram igualmente tidos como semelhantes em dignidade e importância(apesar de opostos), tal como o sol e a lua, o fogo e a água.
Isto é muito bonito mas na prática não tinha grande aplicação. No entanto, de certeza que ciência moderna incorporou parte desta filosofia, ou não tivesse sido das primeiras instituições a ver os dois sexos como naturalmente iguais.

Natcho Popcorn disse...

Pois pedro mas essa dualização acarreta riscos: primeiro, qualquer e toda dualização pressupoe uma hierarquização; depois essa dualização é falaciosa porque nada é rigidamente e totalmente oposta ou dual. Esse esquema apenas funciona em termos arquetipos essencializados. Outro risco é o apelo à heteronormatividade como uma "ordem natural" (ou naturalizada?). A Ciência Moderna (através da Medicina e da Psicologia) inaugurou um sistema de sexo classificatório tão arquetipico de forma a que as ideais de homem, mulher hetero e homo fossem incorporadas no senso comum como reveladoras dessa ordem. O objetivo dela era a eugenia. Não admira pois que passado algum tempo HItler tenha surgido. Nem tudo é mau: graças a ela, a Ciência libertou-se do jugo da moralidade religiosa (católica) até que vemos médicos a tratar (both way) a homossexualidade como uma... aberração.