quinta-feira, 12 de maio de 2011

Os pró-“determinada forma de vida”. Amén.

Demorou muito. Demorou muito para que a Igreja fizesse apocalipticamente (e idiotamente) as suas típicas correlações sobre os nossos tempos como que, no cimo do seu pedestal, organiza a seu bel prazer o social. A correlação, neste caso, é a ligação estapafúrdia entre as taxas de natalidade e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nada de novo, a Isilda Pegado apressou-se e já o fez em relação ao aborto.

Ora pois bem, este tipo de correlações – sem evidências científicas sustentáveis -, está no mesmíssimo patamar de coerência epistemológica do que os comentários dos extremistas da Westboro Church e de um ministro israelita que, há uns anos (e ainda hoje, penso), diziam que a aceitação da homossexualidade ora conduziria à morte dos soldados no Iraque (os primeiros), ora à existência de abalos sísmicos (o segundo). A gargalhada toma conta de mim. Não sei quanto a vocês mas eu estou a ter uma imagem mental da ligação entre um homem gay e um terramoto. Um amigo meu diria que «era uma bicha a deixar cair o brinco». Whatever…

Este populismo aberrante e nojento da Igreja encontra o seu eco discursivo numa estratégia bem conhecida da mediação chamada «o silogismo do outro». Gabriela Moita descreve-a assim na sua tese de doutoramento sobre o discurso da homossexualidade em contexto clínico:

«“o sodomita é o pior dos criminosos; X, que se

opõe ao meu grupo, é o pior dos criminosos; logo, X é um sodomita” (…) Trata-se

de uma norma destinada a reforçar a homogeneidade do grupo pela exclusão da

sodomia. O princípio que prevalece pode ser resumido pela fórmula “o homossexual é

culpado ” ou pela fórmula contrária “o culpado é homossexual”. Nestes casos, a

sodomia representava apenas um pretexto arbitrário de condenação. Não era

necessário que os designados culpados praticassem sodomia» (Moita, 2001: 48).

Mas não nos vamos situar na desmantelação do discurso. Vamos directos à coerência dos argumentos que defendem que não há uma correspondência exacta entre baixas taxas de natalidade e aceitação da homossexualidade:

a) Na Europa todos os países da Europa aceitam a homossexualidade e essa aceitação é visível na legislação. Evidente que, de sociedade para sociedade, comunidade para comunidade, de região para região (por exemplo, países do Leste – Polónia, Lituânia -, países a norte – Reino Unido, Suécia - e países de cultura latina – Portugal, Itália), existem discrepâncias e que também pode haver um desfasamento entre legislação e sociedade (Michel Croizer diria que a sociedade não muda por decreto) mas, de uma forma global, a EU é uma zona do mundo bastante receptiva aos gays e às lésbicas. A Dinamarca reconheceu uniões civis para pessoas do mesmo sexo em 1989, repito, 1989 (!) e hoje ela apresenta-se como uma forte potência europeia. Fora da Europa temos os EUA, a China e a Índia que inclusive descriminalizou a homossexualidade há pouco tempo (2009).

b) Não há forma de se saber se as baixas taxas de natalidade se devem aos homossexuais ou aos heterossexuais. A minha tese é que são os heterossexuais (o grupo que, à partida, deveria reproduzir conservadoramente falando) os grandes culpados (e culpadas) visto que a presença de gays e lésbicas no mundo ocidental se tem mantido estável desde (espantem-se) do séc. XIX (ver Mendel e Jeremey Betham), isto é, 10%. Os mesmos 10% de Kinsey (década de 50) que o jornal Público expressou numa sondagem em 2005. Contudo, não vi a Igreja a querer proibir o coito interrompido ou o sexo oral entre pessoas de sexo diferente nem os/as heterossexuais muito preocupados/as com o preservativo nem a pílula. Estranho.

c) É irreal dizer que a aceitação do casamento (ou união) entre pessoas do mesmo sexo reprime a reprodução pois, nem que a homossexualidade fosse crime, a reprodução seria viável. A não ser, claro, que a Igreja queira fazer da natalidade um dever…

d) É irónico que a Igreja esteja tão preocupada com a natalidade, ao que parece mais do que sobre os escândalos de pedofilia, e no entanto não tenha assinado em 2008 um decreto, proposta do primeiro-ministro francês, Sarkozy, a descriminalizar a homossexualidade a nível universal (como se sabe, em 6 países, esta é criminalizada com pena de morte) e tenha ficado em silêncio com a perseguição inclusive religiosa a homossexuais no Uganda. Outro facto estranho. Pensava que a Igreja era pró-vida. Afinal, é pró-“determinada forma de vida”…

e) Ora, tantas coisas para o país tratar e vai-se discutir essa questão. Afinal os homossexuais não são uma minoria irrisória? Afinal a heterossexualidade não era tão “natural” que agora a Igreja se quer imiscuir na vida privada dos cidadãos e cidadãs? Regular o “natural”? Regulação da vida privada? Controlo corporal? Não muito distante da crítica às tecnologias reprodutivas…

f) A Igreja sabe quantas crianças existem em Portugal que são abandonadas em Portugal pelos próprios pais? Ainda há pouco tempo a estatística (que vale o que vale é certo mas) indicou que 55 menores foram assassinados pelos próprios pais! Mas esperem lá, não é a família ideal composta por pai e mãe e filhos? Serão essas famílias “ideais”?! Há um ideal universal de família? Os conservadores, em ultima analise, responderão: os homossexuais quando tratam da adopção tem que perceber que se trata de uma estatística pois é precisamente por existir crianças abandonadas que eles podem optar. Concerteza, mas os problemas do mundo são tantos que sempre existirão crianças para serem adoptadas (como existirá capitalismo ou patriarcado…).

g) É curioso reparar que a Igreja apesar de ser (supostamente) pró-natalidade se mostra contra as tecnologias reprodutivas (barrigas de aluguer, inseminação artificial). Esperem lá, afinal a qualidade também conta? Os meios interessam e não os fins? Começamos a chegar a um entendimento no emaranhado desta lógica positivista da quantidade…

h) E pegando na quantidade poderia fazer uma distinção entre esta e a qualidade mas nada iria mudar no centro nevrálgico do pensamento judaico-cristão arcaico, medieval, inquisitorial e bolorento…

Para se reflectir…

1 comentário:

pedro a. disse...

acho louvável que ainda comentes os comunicados da igreja portuguesa. quando percebi eram escritos a pensar no milhão de analfabetos que ainda existem no país (curioso número, 10%) deixei de lhes prestar atenção.
"a baixa natalidade é, sobretudo, um problema legislativo" - preconceitos à parte, o meu livro de Geografia do 7º ano adianta mais sobre este tema do que todo o Clero português. tristeza