quarta-feira, 4 de maio de 2011

Baixa cultura

O Quim Barreiros é um homem do seu tempo e como os homens do seu tempo dificilmente mudarão. Para os/as que o parodiam, denominando-o de “rei da música pimba” (e esse rótulo fortemente ligada ao simbolismo da baixa cultura, por sua vez, ligado à cultura popular, por sua vez, ligado à periferia das classes), desconhecem por completo a sua arte performativa e a essência da criatura: um grande performer. Um concerto seu é dividido em músicas mais antigas (as mais conhecidas como “a garagem da vizinha” ou “os peitos da cabritinha”) e as mais recentes intercaladas quer com hinos ao FCP (o Quim nunca esquece os contextos, neste caso, o da Queima das Fitas do Porto), quer com incitamentos aos finalistas com o grito de praxe: “e salta finalista, olé, olé!”, quer com covers de músicas extremamente popularizadas como «o tiro-liro».

Como os homens do seu tempo, o seu sexismo e, consequentemente, a sua homofobia é gritante. A dada altura, pede ao público para cantar uma canção com ele. Na primeira parte os homens, na segunda as mulheres e (pasme-se) «e se houver algum maricas por aí, que penso que não há [já não me lembro do resto da frase]». Os maricas na Queima eram muitos mas a falta de consciência identitária dos gays aliada à sua necessidade de heterossezualização como estratégia de engate gay, particularmente, num ambiente masculinista e medonhamente homofóbico, era atroz. Aliás, tal acto vem no seguimento da musica «Casamento Gay» que o Quim Barreiros não se atreveu a cantar (os gays, como eu, agradecem!).

Tirando esse incidente lamentável, Quim Barreiros é um artista à sua maneira, refém da sua própria baixa cultura (como diria o professor António Magalhães) e, ironia das ironias, é isso que lhe confere o estatuto adquirido de rei da música pimba, uma forma bonita de lhe chamar uma caricatura (ri-dí-cu-la) de si mesmo.

1 comentário:

pedro a. disse...

1.Este ano não consegui ir à queima (ai, a dor!), mas pelo que contas do concerto do Quim pouco parece ter mudado em relação ao último ano.
Sou um grande fã do senhor; não pela arte, mas pelo espectáculo - aí o senhor é o rei inquestionável. E o que o povo (e eu, portanto) gosta de um bom bailarico!

2. Não posso afirmar com certeza, mas lembro-me vagamente que o resto da frase que te escapou seria algo do género "canta [o maricas] onde mais se sentir confortável". Fiquei com essa ideia.

3. A queima enquanto ambiente homofóbico. Tens essa ideia? Eu vejo a queima como o escape às tensões repressoras - da faculdade e da praxe; e, por isso, libertina(o álcool liberta, a bem ou a mal). Mas admito que essa impressão varie de faculdade para faculdade (gostava sempre da parar em frente à barraca da FAUP para efeitos de contrapiscanço ahaha).

4. A música do Casamento Gay é particularmente brejeira e gráfica. Mas que se podia esperar de uma música do Quim? Brindou a comunidade com a sua graça (desgraça, pelo que dizem), aproveitou-se do mediatismo, mas deu também mediatismo à coisa. O reportório dele é é chauvinista e ordinário, sim. Mas é popular. E a verdade é que quem vai à Gulbenkian também vibra com o popularucho - nunca o admitindo claro.
E valha-nos o riso! O humor é uma óptima arma para quebrar tabus. Cito como exemplo o sketch do "vrenhc" dos gato, onde também se invocam preconceitos não muito lisonjeiros para a comunidade, mas que ajudou em muito a campanha do casamento.
Ou (arrisco) as mensagens de ordem das Panteras Rosa nas marchas do Porto de Lisboa, não menos brejeiras que a dita música. Claro, muda o contexto e o mensageiro. Mas, vá, não é caso para tanto; o senhor faz por divertir o público da maneira que ele sabe que este gosta. É o povo que temos, que vai para o bailarico para esquecer os problemas do país, os seus, e os nossos. Quem o pode censurar?
Baixa cultura, pois. Mas que foda, depois vamos todos para casa ler Proust e ouvir Mahler. ahaha

5. http://www.ionline.pt/conteudo/64141-quim-barreiros-sempre-fui-favor-do-casamento-homossexuais